segunda-feira, 14 de maio de 2012

Jorge Semprún - Protagonista histórico



por Nuno Ribeiro

“Creio que Jorge Semprún viveu não como testemunha, mas como protagonista os grandes tumultos históricos do século XX, lutou contra o fascismo, foi militante da resistência e teve a experiência atroz dos campos de concentração, viveu a ilusão comunista e as grandes fraturas do comunismo quando se revelaram os campos de concentração, Gulag, participou na tentativa da experiência euro comunista e foi purgado pelo comunismo estalinista”. É assim que, na edição de hoje do diário “El País”, Mário Vargas Llosa sintetiza o percurso vital de Semprún. Experiências no limite da vida que estão na origem do que alguns críticos definem como “literatura de memória”. A sua escrita e os relatos de uma vida.

Nascido em Madrid, em 10 de Dezembro de 1923, Semprún era neto do político conservador António Maura, que foi presidente do Governo sob o reinado de Alfonso XIII. Quando eclodiu a Guerra Civil Espanhola, Jorge Semprún e os irmãos foram para Haia onde o seu pai era embaixador da República Espanhola junto dos Países Baixos. Tempos narrados em “Adeus, luz de verões”. Após a vitória de Francisco Franco, a família instala-se em Paris. Com a ocupação nazi da Europa, Semprún adere à resistência e, em 1942, integra o PCE. Pouco tempo depois, é preso e deportado para o campo de concentração de Buchenwald, onde permanece dois anos até ao fim da II Guerra Mundial.


“Desapareceram as testemunhas do extermínio, ainda há mais velhos que eu, mas não são escritores”, dizia, em 2000, numa entrevista ao “El País”. E recordava. O odor a carne queimada. “Esse cheiro vai-se comigo como se foi com os outros”, dizia. Tentou que assim não fosse. Escreveu. Entre outros, “Viverei com o seu nome”. Em 11 de Abril do ano passado, no 65º aniversário da libertação do campo de Buchenwald, fez a última visita ao campo de onde saiu vivo por milagre. Ou astúcia. Em vez de declarar ser estudante, afirmou ser estocador.

Em 1953, acede ao comitê central do PCE. É Federico Sanchez, o seu nome de código no partido. Vive temporadas na capital espanhola na dura clandestinidade. Onze anos depois, em 1964, juntamente com Fernando Claudin, é expulso por discrepância com a linha oficial do PCE de Dolores Ibárruri, “La Passionária”, e Santiago Carrillo. Mais tarde, a literatura alivia-lhe o desencanto, quando escreve “Autobiografia de Federico Sanchez”.


“A Espanha foi pouco generosa com Semprún”, admitia, ontem, César António Molina, antigo ministro da Cultura de Rodriguez Zapatero. E assim foi. A heterodoxia de Semprún, o seu cosmopolitismo, sempre suscitou reparos na esquerda espanhola. Como os seus êxitos. E o seu empenhamento. Foi roteista de Alain Resnais, escreveu o roteiro de “Z” para Costa Gravas, trabalhou com Joseph Losey.

Houve um período de “namoro” com a política espanhola e o seu país. Entre 1988 e 91, foi ministro da Cultura na segunda legislatura de Felipe González. Quem o convidou para o cargo foi Javier Solana, então ministro daquela pasta. Viveu de perto os primeiros problemas de convivência do “felipismo”. E, como sempre, escreveu. “Federico Sanchez despede-se”, é o relato desses anos.

Fonte: jornal Público – Lisboa (PT)

A carta apaixonada de Olavo Bilac




por Pedro Corrêa do Lago
Olavo Bilac foi objeto de uma admiração apaixonada entre os brasileiros letrados nascidos no começo do século passado. Ainda hoje admirado como o maior poeta parnasiano do Brasil, Bilac foi eleito, em 1907, “príncipe dos poetas brasileiros”, título que hoje soa algo cafona, mas que em seu tempo foi tido como uma grande consagração. Bilac é autor de alguns dos versos mais famosos da poesia brasileira e várias gerações aprenderam de cor seus poemas.
Sua fortuna crítica entrou em certo declínio a partir dos anos 60, mas as últimas décadas devolveram-lhe o papel de destaque que lhe cabe, como grande criador no estilo que prevaleceu em seu tempo, e que Bilac ajudou a firmar. A homossexualidade provável de Bilac era naturalmente ocultada por este, mas parece ter sido comentada abertamente por seus contemporâneos, como comprova uma famosa charge de Seth publicada numa revista ilustrada em 1911, na qual o poeta aparece apontando para as costas empinadas de uma estátua de efebo grego e observando: "Ah! Se todos os homens fossem assim...".
Aos 22 anos, Bilac, que talvez ainda não se soubesse homossexual, apaixonou-se e tornou-se noivo de Amélia de Oliveira, irmã de Alberto de Oliveira, cuja poesia parnasiana talvez só perca em qualidade para a de Bilac. Nessa ocasião, louco de felicidade, Bilac escreve de São Paulo a carta famosa reproduzida nesta página, dirigida a Luiz de Oliveira, outro irmão de sua noiva, para comunicar-lhe o ocorrido, carta que vale a pena transcrever na íntegra:
 “Meu querido Luiz
Cheguei ontem do Rio, onde fui passar oito dias. Cá estou de novo n’esta medonha Paulicéa. Que inferno!
Participo-te que sexta-feira passada, 11 de Novembro de 87, ás 2 horas e 35 minutos da tarde, ficou sendo minha noiva tua irmã Amélia. Minha noiva, leste bem? Minha noiva! É a primeira vez que escrevo estas duas palavras. Minha noiva! Como estou feliz! Como é bom viver! Como é bom amar e ser amado!
Manda-me dizer se ficas satisfeito com a notícia, e se ainda és meu amigo, Luiz. Escreve-me, assim que receberes esta carta, para o Diário Mercantil, S. Paulo. Fico ansioso pela tua resposta. Tenho lido a Vida Literária. Estás um poeta de mão cheia. Abraço-te. Escreve-me, escreve-me, escreve-me... AQUI

domingo, 13 de maio de 2012

Pedro Bandeira - "O Kara"



Pedro Bandeira de Luna Filho (1942) é escritor brasileiro de livros infanto-juvenis. Se destacou com a obra "A Droga da Obediência". Recebeu, entre outro, o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do livro.

Pedro Bandeira nasceu em Santos, São Paulo, em 9 de março de 1942, onde dedicou-se ao teatro amador, até mudar para a capital, onde estudou Ciências Sociais na Universidade de São Paulo (USP). Casou-se com Lia, com quem teve três filhos: Rodrigo, Marcelo e Maurício.

Além de professor, trabalhou em teatro profissional até 1967 como ator, diretor, cenógrafo e com teatro de bonecos. Mas desde 1962, já trabalhava também na área de jornalismo e publicidade, começando na revista "Última Hora" e depois na Editora Abril, onde escreveu para diversas revistas e foi convidado a participar de um coleção de livros infantis.O primeiro livro "O dinossauro que fazia au-au", voltado para as crianças, fez um grande sucesso. Mas foi com "A Droga da Obediência", voltado para adolescentes, que ele considera seu público alvo, que se consagrou.

Desde 1983, Pedro Bandeira dedicou-se inteiramente à literatura. Ele garante que a experiência em jornais e revistas o ajudaram como escritor, uma vez que o jornalista é obrigado a estar preparado para escrever sobre quase tudo. Ele escrevia para revista de adolescente e para publicações técnicas. Foi aprendendo a criar um estilo para cada público.Estudou psicologia e educação para entender em que faixa etária a criança acha o pai herói, com qual idade acha ele um idiota e quando está pronta para questionar tudo e todos. "Sem esse conhecimento é impossível criar um personagem com o qual o leitor que você pretende atingir se identifique". A inspiração para cada história, segundo o autor, vinha de livros que leu e nos acontecimentos de sua própria vida.

Criatividade nunca faltou ao santista, mas quando isso acontece, Pedro abre o e-mail de seu computador e começa a ler mensagens e cartas que recebe semanalmente de seus leitores de todo Brasil. "As vezes tiro idéias das cartas porque o conteúdo das mensagens são os mais diversos. Tem quem pede conselho sentimental, outros dizem que não se dão bem com os pais e já recebi até carta de presidiário. Tento responder a todas".

Pedro Bandeira é o autor de Literatura Juvenil mais vendido no Brasil e, como especialista em técnicas especiais de leitura, profere conferências para professores em todo o Brasil. Já escreveu mais de 50 livros, entre eles a série "Os Karas", "A marca de uma lágrima", "Agora estou sozinha...", "A hora da verdade" e "Prova de Fogo".


sábado, 12 de maio de 2012

De Pindorama ao Cemitério de Praga...



por Zeferino Neto

Amigos, confesso, a coisa de querer escrever romances históricos como venho tentando com uma brincadeira que ganhou até um blog para ser lido, As Aventuras do Cavaleiro do Tempo em Terras de Pindorama, veio de leituras que já duram mais de vinte e tantos anos, dos romances históricos do consagrado Umberto Eco, autor de O Nome da Rosa, Pêndulo de Foucault, Baudolino,  A Ilha do Dia anterior, etc., e vendo uma resenha na revista Carta Capital de semanas atrás, me deparei  com o romance O Cemitério de Praga, que tem a trama envolvida com um personagem que teria escrito o famoso Protocolo dos Sábios do Sião, libelo contra o Cristianismo, mas acusado também de ser antissemita, racista, nazista, comunista, anarquista e mais meia dúzia de istas. Eco é mestre dessas narrativas em que se misturam personagens e situações históricas com outras ficcionais que saem de sua mente erudita (me dá a impressão de leu tudo o que se produziu em matéria de tudo o que escreveu no Ocidente. Levei dez anos para ler e digerir o Pêndulo de Foucault pelo fato de que era dado a leituras esotéricas e ocultistas e os personagens principais eram anti-esoterístas e anti-ocultistas, e aquilo me incomodava e eu ficava tentando achar os furos daquelas ideias daqueles personagens meio escrotoides e céticos, por mera diversão...) Eco faz, como qualquer ficcionista, seus personagens falarem por si, se permitindo assim, dizer os maiores disparates sem se expor muito por isso... No livro que leio agora, já falou mal em 50 páginas de alemães, franceses, italianos, jesuítas, maçons, comunistas, judeus, de Freud, Charcot, Mesmer... O personagem principal, narrador em primeira pessoa, falsário que se verá depois, é autor dos ditos Protocolos dos Sábios do Sião, fala mal até de si mesmo, principalmente... Leitura pra pegar a gente pelo saco e fazer esquecer internet e televisão...  

Zeferino Neto é dramaturgo e blogueiro.

MAIS SOBRE O CEMITÉRIO DE PRAGA

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Cora Coralina Cozinheira, quituteira e mãe



por Cristina Brayner

Há dez anos, eu fui conhecer as famosas praias do rio Araguaia, em Goiás. Éramos um grupo grande de amigos ocupando uma casa num final de semana idílico. Naquela época, eu nem pensava na possibilidade de mudar de profissão e me tornar uma cozinheira,   
 
mas como já curtia esse trabalho, me ofereci para fazer a comida. Pela tarefa realizada, recebi um presente: um livro daquela que foi a cozinheira mais famosa do estado, a poetisa Cora Coralina.
Abri o livro com avidez, olhei os títulos dos poemas no índice e li um chamado "Cora Coralina, quem é você?". Logo no início tenho um arrepio de prazer: “- Sou mulher como outra qualquer. / Venho do século passado / e trago comigo todas as idades". Mais adiante ela me conquistou definitivamente: "- Sou mais doceira e cozinheira / do que escritora, sendo a culinária / a mais nobre de todas as Artes: / objetiva, concreta, jamais abstrata / a que está ligada a vida e a saúde humana."
Mergulhei na obra dessa escritora com tanto prazer quanto mergulhei no Araguaia e viajei na poesia dessa goiana, onde a alma de cozinheira é evidenciada em inúmeros poemas.
Cora Coralina foi o nome escolhido por Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas para a poetisa que vivia dentro dela. Nasceu em 20 de agosto de 1889 e faleceu em 10 de abril de 1985. Teve quatro filhos, 15 netos e 29 bisnetos. Renomada doceira, profissão que exerceu por mais de vinte anos, chegou a deixar um livro de receitas. Embora escrevesse desde os 14 anos, tinha 76 quando seu primeiro livro foi publicado e quase 90 anos quando sua obra chegou as mãos de Carlos Drummond de Andrade, responsável por sua apresentacao no mercado.
Da cidade de Goiás Velho, onde nasceu, saiu para o estado de São Paulo, vivendo fora por 45 anos. Retornou em 1954, passando a dedicar-se aos doces, sobretudo os cristalizados.
Frutas, ela as tinha de sobra, num estado tão rico. Em Goiás, é famoso o Empadão Goiano; feito com frango, linguiça, queijo, ervilhas, azeitonas, ovos e guariroba, uma espécie de palmito amargo. Também típico na região é o Arroz com Pequi, uma fruta amarela, parecida com a ameixa, de sabor forte e aroma penetrante. Além disso, são deliciosas as pamonhas feitas com queijo, lingüiça, cheiro-verde e pimenta. Estas, são tão comuns no estado, que quando se quer frisar a insignificância de uma cidadezinha qualquer, a expressão consagrada é: "só tem igreja e pamonharia".
As guloseimas são muitas, como o Bolo de Arroz, feito com fubá socado, açucar, água e fermento natural; os sequilhos, biscoitos de polvilho, as broas de milho e os pães de queijo. Cora Coralina apreciava muito os pães. No poema "Eu Voltarei", ela começa dizendo: " - Meu companheiro de vida será um homem corajoso / de trabalho, / servidor do próximo, / honesto e simples, / de pensamentos limpos ./ Seremos padeiros e teremos padarias. "
Num outro, intitulado "Pão-Paz", de um lirismo religioso, ela derrama sua homenagem: "- O Pão chega pela manhã em nossa casa. / Traz um resto de madrugada. / Cheiro do forno aquecido, de lêvedo e de lenha queimada. / Traz as mãos rudes do trabalhador e a Paz dos campos cheios. / Vem numa veste pobre de papel. Por que não o receber / numa toalha de linho puro e com as mãos juntas / em prece e gratidão?”
Cora Coralina, cozinheira, quituteira, doceira, uma mãe brasileira! Uma mulher que viveu à imagem e semelhança de tantas outras mães desse Brasil, fazendo de sua sensibilidade o alimento dos entes queridos. A vocês, a minha homenagem com um trecho do poema de Cora Coralina, "Todas as Vidas":
"Vive dentro de mim a mulher cozinheira. Pimenta e cebola. Quitute bem feito. Panela de barro. Taipa de lenha. Cozinha antiga toda pretinha. Bem cacheada de Picuma. Pedra pontuda. Cumbuco de coco."
Cristina Brayner
Chef, formada pela famosa escola Le Cordon Bleu. Atualmente mora nos EUA, onde dá aula de culinária francesa e administra uma empresa de prestação de serviços 
Cora Coralina
(1889-1985)
Mais sobre Cora Coralina 

sexta-feira, 4 de maio de 2012

MILTON SANTOS – O Espaço Dividido



Milton Santos nasceu no município baiano de Brotas de Macaúbas em 3 de maio de 1926. Ainda criança, migrou com sua família para outras cidades baianas, como Ubaitaba, Alcobaça e, posteriormente, Salvador. Em Alcobaça, com os pais e os avós maternos (todos professores primários), foi alfabetizado e aprendeu álgebra e a falar francês.
Milton foi um dos intelectuais mais importantes do país e também foi o maior geógrafo brasileiro. Escreveu mais de 40 livros. Publicou seu trabalho na França, na Inglaterra, nos Estados Unidos, no Canadá, no Japão, em Portugal e na Espanha. Deu aula nas principais universidades do mundo. Recebeu prêmios e foi o único pensador, fora do mundo anglo-saxão, a ganhar o Vautrim Lud, uma espécie de Nobel da Geografia.
Durante toda a sua vida acadêmica, Milton Santos buscou agregar a Geografia às contribuições de outras disciplinas: Economia, Sociologia, História, Filosofia. Nos últimos anos de vida, seu trabalho mostrava uma clara preocupação com a Globalização. Crítico dos processos econômicos que excluíam as nações mais pobres, Milton Santos acreditava num mundo mais humano, mais solidário e justo.
Em função de suas atividades políticas junto à esquerda, Milton foi perseguido pelos órgãos de repressão da ditadura militar. Seus aliados e importantes políticos intervieram junto às autoridades militares para negociar sua saída do país, após ter cumprido meio ano de prisão domiciliar. Milton achou que ficaria fora do país por 6 meses, mas acabou ficando 13 anos. Milton começa seu exílio em Toulouse, passando por Bordeaux, até finalmente chegar em Paris em 1968, onde lecionou na Sorbone, tendo sido diretor de pesquisas de planejamento urbano no prestigiado Iedes.
Permaneceu em Paris até 1971, quando se mudou para o Canadá. Trabalhou na Universidade de Toronto. Foi para os Estadoso Unidos, com um convite para ser pesquisador no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde trabalha com Noam Chomsky. No MIT trabalha em sua grande obra O Espaço Dividido. Dos EUA viaja para a Venezuela, onde atua como diretor de pesquisa sobre planejamento da urbanização do país para um programa da ONU. Neste país manteve contato com técnicos da Organização dos Estados Americanos. Estes contatos facilitaram sua contratação pela Faculdade de Engenharia de Lima, onde foi contratado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) para elaborar um trabalho sobre pobreza urbana na América Latina.
VEJA O CURRICULUM COMPLETO DE MILTON SANTOS AQUI

quarta-feira, 2 de maio de 2012

CASSANDRA RIOS - Flores e Cassis



Durante a ditadura, a literatura erótica de Cassandra Rios tornou-se alvo certo para os censores. Produções vistas como pervertidas e pecaminosas eram desvios que precisavam ser combatidos pelo Estado. Resultado: trinta e seis dos seus quase cinquenta títulos foram proibidos na época.
O sexo era assunto tabu. O prazer feminino não era concebido como uma possibilidade, muito menos um direito. A religião regia a moral e os bons costumes. Foi neste cenário adverso que surgiram os livros de Cassandra Rios, no fim da década de 1940. Seus temas: o erotismo entre mulheres, os conflitos internos e estereótipos associados a essa experiência. Tudo escrito de forma direta e sexualmente explícita.
Tamanha ousadia resultou em um tremendo sucesso editorial. Cassandra Rios, nascida Odete (1932-2002), tornou-se a pioneira da literatura homossexual no país e manteve-se como principal autora do gênero durante mais de trinta anos.
A escritora na época do sucesso editorial dos anos 60/70.
Na maioria das vezes, ela lançava os livros por pequenas editoras, em alguns casos com dinheiro do próprio bolso. Foi assim com o primeiro deles, A volúpia do pecado, pago pela mãe da escritora, que, no entanto, nunca leria um livro da filha. Hoje em dia, só é possível encontrar obras essenciais, como Copacabana posto 6 – A madastra (1972) e Eu sou uma lésbica (1979), em bibliotecas ou em sebos, pois estão esgotados e fora de catálogo. Recentemente, foram relançados alguns títulos: As traças (1975), Uma mulher diferente (1980), onde o personagem principal é um travesti, e o surpreendente Crime de Honra (2000), única obra até então inédita, na qual Cassandra se aventura pelo universo homossexual masculino. 

Como explicar essa aceitação? Talvez, justamente por seu estilo ousado e extrovertido. Era uma mulher escrevendo sobre o prazer com outra mulher, e apresentando essa vivência como um caminho possível para a vida afetiva e amorosa. Quando seus livros foram publicados, a sigla GLBT (Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) estava longe de existir, não havia organizações de homossexuais, e nem mesmo os meios de comunicação publicavam conteúdo erótico. Em uma sociedade patriarcal e machista, a maternidade ainda era considerada o principal papel feminino. Razão pela qual, embora um sucesso de vendas, seus livros sempre foram encarados como marginais.
Tachada de “pornográfica”, a literatura de Cassandra Rios não mereceu qualquer esforço de crítica naquele período. Porém, se ela não primava pelo rebuscamento do estilo, tinha o inegável mérito de descrever de forma aguda os conflitos subjetivos vividos pelos personagens: seus temores, questionamentos, e o preconceito já internalizado.
ADRIANE PIOVEZAN é Mestre em Estudos Literários pela UFPR e autora da dissertação "Amor romântico X Deleite dos sentidos: Cassandra Rios e a identidade homoerótica feminina na literatura” (UFPR, 2006).

Caricatura baseada em foto antes de falecer. Título do post tirado de uma definição sobre ela mesma, Cassandra Rios, em um dos trechos de seu livro autobiográfico "Flores e Cassis":

"Como mulher eu sou, na definição exata de como me sinto, uma menina medrosa que se escondeu atrás de um pseudônimo, que se assustava e tinha medo de tudo, e hoje não tem medo de nada! 


terça-feira, 1 de maio de 2012

A CIRANDA DE LYGIA



Mario Rodrigues

Certa vez, Lygia Fagundes Telles ouviu da amiga Clarice Lispector a seguinte frase: “Não sorria em fotografias. Uma escritora sorridente não é levada a sério”. Lygia nunca obedeceu a esse conselho. Seus retratos ao longo dos anos, publicados em revistas ou jornais, estão cheios de sorrisos, em meio a algumas poses mais austeras. Nenhum deles impediu que ela avançasse na carreira literária. Não que a observação de Clarice Lispector fosse descabida, dada a condescendência com que as mulheres, no trabalho intelectual, podiam (e eventualmente ainda podem) ser tratadas. Mas o talento de Lygia era substancial demais para ser ignorado. E sua personalidade jamais permitiu que confundissem sua leveza com frivolidade.
“A história da minha família pelo lado paterno se encaixa naquele ditado: pai rico, filho doutor, neto mendigo. A neta fui eu”, diz a escritora. Em 1936, quando Lygia tinha 13 anos, ela e a mãe retornaram a São Paulo para uma vida de “classe média empobrecida”, enquanto o pai continuava com suas andanças pelo interior. Em 1941, ela ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, quando sua vida e a da cidade começaram de fato a se entrelaçar.
Lygia é uma daquelas personalidades de quem se costuma dizer que “conhece todo mundo”. Ainda nos anos 40, de boina e meias de golfe puxadas até o joelho (duas modas que diz ter lançado como aluna de direito), ela era ativa organizadora de saraus com autores famosos no grêmio estudantil. Trouxe a São Paulo para dar palestras Cecília Meireles e Érico Veríssimo. Ia com os amigos comer pipoca no apartamento de Oswald de Andrade, enquanto ele lia seus textos inéditos. E ouviu de Mário de Andrade a confidência de que ele se achava “um canhão”, num encontro relatado na crônica Durante Aquele Estranho Chá. O espírito sociável fez com que desenvolvesse laços com um grande número de escritores mais velhos ou mais jovens e com que se sentisse à vontade em instituições que muitos consideram vetustas – ela é imortal da Academia Brasileira de Letras e integrante, igualmente, da Academia Paulista de Letras . O medo de avião (“e do mosquito da dengue”) faz com que já não seja assídua dos chás da primeira, no Rio de Janeiro. Mas ela raramente falta aos encontros semanais da Academia Paulista, no Largo do Arouche.
Aos 85 anos teve de lidar com a perda de pessoas próximas. Pode-se encarar cada perda como uma amputação – mas Lygia tem outro método. “Há uma soma de seres que eu amei e que já se foram, mas, de um certo modo, eles ficaram um pouco em mim”, afirma em um de seus textos. “É difícil explicar com clareza, mas eu chamaria, assim, uma espécie de legado. E o fato é que me impregnei desse legado lá no indefinível que nos habita, a alma.” Seus livros contêm homenagens aos mortos. O posfácio da nova edição do roteiro Capitu, baseado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis, pode ser lido dessa forma. É um instantâneo de seu casamento com o crítico de cinema Paulo Emílio Sales Gomes, no auge da felicidade doméstica. O casal morava num apartamento na Rua Sabará, em Higienópolis, endereço mágico na memória afetiva da escritora. Eles tinham dois gatos. Paulo Emilio a chamava de Kuko – referência ao relógio cuco de uma avó inglesa que, assim como Lygia, estaria sempre atrasado. Aqueles que conviveram com o casal dizem que foi tanto um grande amor quanto um relacionamento calcado na admiração. Paulo Emílio morreu em 1977, vitimado por um ataque cardíaco. Um detalhe ficou gravado na memória de Lygia sobre esse dia. Ele usava uma camisa de algodão estampada, com cavalinhos galopando num fundo azul-claro. “Quando eu vi a camisa jogada numa cadeira no hospital, soube que estava acabado.”
A morte do filho ainda não chegou aos textos de Lygia. Ele nasceu do primeiro casamento da escritora, com o jurista Goffredo da Silva Telles Jr., e é pai de suas duas netas, Lúcia e Margarida. Morreu em 2006, aos 52 anos, depois de um período enfermo e intranqüilo. “Eu fiquei trespassada, urrava de dor”, diz Lygia. Na sala de seu apartamento há uma cópia do livro O Demônio do Meio-Dia, do americano Andrew Solomon. Trata-se de um estudo sobre a depressão, um mal que Lygia experimentou. Ela atravessou vários meses à custa de calmantes. Fez análise, mas não encontrou alívio. Apesar das imagens de santos guardadas no apartamento, a religião tampouco era um consolo. “Eu não sou tão ligada a Deus”, diz ela. No fim, foi por meio do trabalho que ela se reergueu. “Um dia, eu disse: ‘Chega de pílulas’. E voltei aos meus escritos.”
Em breve, talvez haja um novo romance de Lygia. Ela faz um “T” com as mãos, como as atletas de vôlei quando querem interromper um jogo. “Está chegando a hora de pedir um tempo”, afirma. O método da autora sempre foi fixar uma narrativa na imaginação antes de passá-la ao papel. “Do mesmo jeito que, na infância, eu guardava borboletas dentro de caixas de sabonete”, diz ela. Há vários meses, Lygia convive com uma personagem. Sente que pode estar chegando o momento de aninhá-la em seu colo e escrever: “Então, eu vou ficar feliz”.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cinema/Literatura


Há dois anos o Brasil perdia um de seus grandes críticos literários: o paulista naturalizado curitibano Wilson Martins, morto em janeiro de 2010, aos 88 anos. Pensador da cultura brasileira de posições firmes, por vezes polêmicas, ele dividiu opiniões, mas deixou ao país um legado inestimável de reflexões sobre nossa produção intelectual, construído ao longo de mais de meio século de uma disciplinada rotina de leituras diárias.
Em homenagem a esse homem apaixonado pelas letras, que por muitos anos foi colunista da Gazeta do Povo, o cineasta piauiense Douglas Machado realizou o documentário Wilson Martins – A Consciência da Crítica, que fez sua estreia dia 10 de fevereiro deste 2012, no Museu Oscar Niemeyer (MON).
Mas não foi a morte de Martins que motivou o diretor a fazer o filme. O projeto nasceu oito anos antes, quando Machado preparava o documentário H. Dobal – Um Homem Particular, sobre o poeta do Piauí muito admirado pelo crítico. Por meio de seu irmão, o jornalista Marden Machado, que há 20 anos vive em Curitiba, marcou uma entrevista. E o encantamento de Douglas e Marden com o senhor que os recebeu em seu apartamento à Avenida João Gualberto, no bairro Juvevê, fez com que ali nascesse o desejo de transformá-lo em protagonista de um filme inteiro dedicado a ele, também a ser inserido na série Literatura: Brasil, focada em nomes das letras nacionais.
Wilson Martins – A Consciência da Crítica, cuja direção de produção é assinada por Gardênia Cury, teve como base e ponto de partida uma longa entrevista gravada com Wilson Martins, em 2002. Os irmãos Machado contaram que, embora soubessem da enorme importância de Martins e de sua obra, não a conheciam tão a fundo. Recorreram, então, ao escritor, crítico e também colunista da Gazeta do Povo Miguel Sanches Neto, que serviu como uma espécie de guia interlocutor dessa entrevista e do projeto como um todo.
Nos anos seguintes, foram promovidos novos encontros com Martins e entrevistas que ajudaram Douglas e Marden, também produtor associado do filme, a alinhavar o que eles chamam de “tecido de memórias” sobre a trajetória do crítico, que jamais abandonou a máquina de escrever e desconfiava dos computadores.
Além de Sanches Neto, foram ouvidos os escritores Moacyr Scliar, Luiz Antonio de Assis Brasil, Affonso Romano de Sant’anna e um dos ex-alunos de Wilson Martins na New York University, onde o crítico lecionara por três décadas, entre os anos 1960 e 1990: o hoje professor Kenneth Krabbenhoft. Também são fontes importantes os jornalistas José Carlos Fernandes, da Gazeta do Povo, e Márcio Renato dos Santos, também escritor.
Indagado se o contato pessoal com o autor da monumental coleção História da Inteligência Brasileira havia, de alguma forma, alterado a percepção que tinha de Martins, Douglas é enfático. Já no primeiro contato, ficou desconsertado com a forma calorosa e inusitada com que o crítico o recebeu: “Não é todo dia que um cineasta piauiense bate à minha porta”.
Logo caiu por terra a ideia preconcebida, construída a partir da leitura dos textos densos de Martins, de que enfrentariam um intelectual sisudo e erudito, pouco afeito a bate-papos. “Nos deparamos com um homem extremamente afável, educado e gentil”, diz o cineasta.

Partidário
O poeta Affonso Romano de Sant’anna afirma no documentário que talvez seja inédito no mundo o incansável trabalho de Martins de não apenas escrever por décadas sobre os livros publicados no país, mas também de inseri-los em um fluxo histórico e social maior e mais complexo. Apesar de reverenciado por muitos, o crítico também teve seus muitos detratores ao longo da vida. Douglas disse que, como seu documentário não tem cunho jornalístico, ele preferiu manter-se fiel à linha autoral adotada em todos os filmes que integram a série Literatura: Brasil: “Sou partidário do escritor que escolhi”.
Com Martins, o cineasta diz ter aprendido, sobretudo, a importância de “não passar recibo”. No próprio documentário, o crítico afirma, em uma das entrevistas, que sempre buscou manter um distanciamento das reações positivas ou negativas que seus textos pudessem provocar – e, de fato, causavam. E, em um dos seus depoimentos mais marcantes, diz que já havia escrito críticas positivas sobre livros de escritores de quem pessoalmente não gostava muito, e tinha apontado defeitos nas obras de autores de quem era amigo. Ossos de um ofício de fé.
Fonte: Gazeta do Povo (Curitiba-05/02/2012)
Caricaturas: João de Deus Netto

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Rubem Braga, professor de lucidez



Por Carlos Drummond de Andrade

Rubem Braga tinha 18 anos e já se impusera como cronista em Belo Horizonte. Fazia no jornal “Estado de Minas” uma coluna de leitura obrigatória. Sempre andejo, lá um dia viajou, deixando de escrever. Mas o jornal resolveu engambelar os leitores, publicando uma crônica de outro, com assinatura dele. Braga leu e telegrafou ao diretor Afonso Arinos: “Não useis meu santo nome em vão”.
Impossível usar o nome de Braga dando a sensação da prosa de Braga. Ela é patenteada. Seus elementos — sensualidade, ternura, anarquismo, tédio, poesia, humour –, soltos, são manipuláveis por qualquer um. Reunidos, formam um composto especificamente braguino, que até dispensa assinatura. E como ele tem imitadores! Imitam, apenas.
Lembro-me muito do cronista jovem, esquivo e desconcertante. Ele namorava uma mocinha loura da Secretaria do Interior, e não era raro ver o relato dos tristes ou alegres passos do seu idílio, sob forma de crônica. Ninguém ousara fazer isso antes e ninguém pensava em estranhá-lo, pois era deliciosamente bem feito. Braga se tornou menestrel de todos os namorados sem expressão artística, e até dos que haviam namorado há muito tempo e voltavam a sentir o gosto da coisa, através do lirismo dele.


Pois um rapaz assim, apaixonado (à sua maneira) pela loura filha do Clarindo, um dia nos aparece correspondente do jornal no “front” da Revolução Constitucionalista de 1932, e logo se boqueja que ele era um espião terrível dos paulistas entre mineiros, espião que seria conveniente prender, submeter a corte marcial e, quem sabe, fuzilar. Oh, imaginação! (Mas a cara dele era meio russa, não sei.) Numa crônica, Braga confessa: “Eu era espião; era espião da vida no meio da morte. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras”. Quem via essas coisas, sem a névoa passional que perturbava tanta gente, era um mocinho de 19 anos, que escreveria aos 34: “Eu observo as coisas com dois olhos que, embora castanhos e mesmo tirantes a verde, vêem este mundo com bastante clareza”.

E esta é a qualidade mestra e inesperada de Braga: lucidez. Um homem que diz tantas coisas absurdas ou surrealistas pode lá ser bom observador da vida? Perfeitamente. Sempre que necessário, Braga emite juízos ponderados sobre fatos políticos, econômicos, sociais, e se nem sempre ou quase nunca sua opinião coincide com a opinião estabelecida ou vitoriosa, isto nada prova contra a justeza da sua visão intelectual e o seu bom senso; prova apenas que tais atributos não gozam de muito favor na coletividade.
Não é, porém, a clareza da apreciação de Braga, ante os acontecimentos por assim dizer jornalísticos, que impressiona. É sua clareza diante da vida em si, e das coisas naturais. Como espião da vida parecendo chateado, mas interessadíssimo — anota os maravilhosos fenômenos da primavera e do verão, que passam despercebidos ao comum, e extrai deles o máximo proveito existencial. As artes da caça, da pesca e do amor, a observação constante do vento noroeste, o contato com praia e águas correntes, água corrente ele mesmo, a notícia de passarinhos, insetos, frutas, paisagens, a celebração quase litúrgica das graças e mistérios da mulher (para ser gentil, um dia ele me disse em carta que gostaria de me presentear com uma pequena fragata e quatro ou cinco mulheres), o dom de sentir, valorizar e distribuir a natureza como um bem de que andamos todos cada vez mais precisados — esta a lição de Braga, “lição de insaciável liberdade e gosto de viver”, que é grato proclamar no dia em que o admirável professor completa cinqüent’anos com a naturalidade, o gosto da vida e da terra, e o intenso sentimento poético e humano que tinha aos dezenove.

Escrito por Carlos Drummond de Andrade em 17 de janeiro de 1963

A OBRA E A SÍNTESE DOS MELHORES CONTOS DE RUBEM BRAGA AQUI


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