segunda-feira, 8 de novembro de 2010

17/11/2010 - Cem anos de Rachel de Queiroz...


A SENHORA DO NÃO ME DEIXES

Edmílson Caminha

Na manhã quente e luminosa do dia 16 de janeiro de 1983, um domingo, Ana Maria e eu, mais os amigos Maria Lima e Olavo Colares, partimos da Serra do Estêvão ao encontro de Rachel. Grande proprietária de terras, a família Queiroz era dona das fazendas Califórnia, Itália, Manaus, Biscaia e Junco, nos sertões de Quixadá, a 180 quilômetros de Fortaleza. Do pai, Daniel, a escritora herdaria um quinhão, denominado Não Me Deixes, que assume, com o marido Oyama, em 1953.
Fizeram tijolos, cortaram a madeira, construíram a casa, a parede do açude e as cercas do curral. A primeira metade do ano – “inverno” para o sertanejo, quando chove na região –, Rachel de Queiroz passava no Não Me Deixes (assim, no masculino, chamava a fazenda), entre caminhadas pelos arredores e conversas com os moradores, como se sofresse, na bela expressão do escritor cearense Eduardo Campos, de um Complexo de Anteu, a extrair da terra a seiva sem a qual não viveria: “Lá, realmente, é o meu lugar. Cada volta minha é um regresso. E sinto que lá é o meu permanente. O Rio é o provisório.” Segundo ela, não havia nenhuma “literatice” no poético nome do lugar, que lhe fora dado já fazia tempo. Não-me-deixes, explicava, é como popularmente se conhece uma planta ornamental, nativa do sul da África.
Meses antes, ali estivera Antonio Carlos Villaça, o grande memorialista de O Nariz do Morto, que visitava a amiga acompanhado pelo então presidente da Cãmara Municipal de Fortaleza, José Barros de Alencar. Quando o carro oficial estacionou no pátio da fazenda, o motorista abriu a porta para que descesse o escritor, enorme nos seus cento e tantos quilos, de terno preto, a barba branca e o cabelo à escovinha. Foi o suficiente para que a empregada, que varria o terreiro, gritasse no rumo da porta: “Corra, Dona Rachel! O bispo chegou! O bispo chegou!”

2 comentários:

Blog do Morani disse...

Foi muito bom conhecer um pouco mais da vida de Rachel de Queiroz. Mocinha ainda e já tinha às mãos os originais de "O Quinze". A mim, essa obra foi, dentre outras, a melhor por ela escrita; a próxima, a seguir, "Caminhos das Pedras" não me causou aquele "arrepio" que nos dão as belas obras do romanceiro nordestino. A história tem o brilho das pedras preciosas - simples, bela e verdadeiramente dentro do clima do nordeste que tão bem conheci morando em Natal,RN, pelos idos de 1947 a 1953. O seu lugar em nossa literatura foi, e ainda é, o que ela desbravou com a sua coragem de ela mesma patrocinar a publicação de sua singela história. "O Quinze", já lido e relido por mim por mais três vezes, se acha entre os grandes romances de escritores nordestinos como José Lins do Rego, José Américo de Almeida e demais dessa saga. O primogênito de Rachel de Queiroz não achou abrigo em seu coração, por que não sei.

Paulo Roberto Bornhofen disse...

Parabéns!
É muito agradável encontrar este tipo de texto (depoimento/testemunho). São particularidades que muitas vezes não temos acesso.

Abraços,

Paulo R. Bornhofen

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