sexta-feira, 15 de julho de 2011

Pedro Nava

"Esquecem que cada homem só vive e é grande quando mostrado integralmente. Nos seus acertos e erros. Nos acertos e erros dos outros sobre sua pessoa", Baú de ossos, p. 210.

Pedro Nava usou essa frase para reclamar dos biógrafos que teriam corrompido a memória de médicos brasileiros importantes como Miguel Couto, Oswaldo Cruz e Carlos Chagas por escreverem "com luvas de borracha que desinfetam tudo que existe de humano para só ensaiar o mito esterilizado que anula o homem". Baú de ossos, p. 210. Com ele não foi assim. Dono da própria pena, Pedro Nava escreveu uma extensa série de memórias que contam sua vida e a de seus antepassados, retratam os costumes do povo brasileiro e, principalmente, o revelam em sua humanidade. Com seu lado bom, e seu lado mau. Com alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, sucessos e fracassos.
Nascido em 5 de junho de 1903, Pedro da Silva Nava, filho do médico José Pedro da Silva Nava e de Diva Mariana Jaguaribe inicia seu Baú de ossos se descrevendo de forma simples: "Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais". Puro despiste. Nava era um ser múltiplo, dividido e denso. Homem de vastíssima cultura em várias vertentes - medicina, literatura, história da arte, línguas. A primeira frase de seu livro é uma referência a Eça de Queirós que também se intitulava: "Eu sou um pobre homem de Póvoa de Varzim".
Nasceu em Juiz de Fora, mas foi batizado no Ceará. Cresceu no Rio de Janeiro, viveu a mocidade em Belo Horizonte. Era médico, e como tal jurou pela vida, mas tinha profundo fascínio pela morte. Seu poema mais famoso e elogiado era "O defunto". Conviveu com personagens da cultura e deles se tornou amigo: Afonso Arinos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Helio Pellegrino, Manuel Bandeira, Mário de Andrade, Aníbal Machado.
Foi um espectador privilegiado do século XX. Viu o cometa Halley em 1910, viu Santos Dummont flanando pelas ruas do Rio de Janeiro, ouviu discursos de Rui Barbosa, sofreu com a I e a II Guerras Mundiais, conheceu e foi inspirado pelos modernistas que, em caravana pelo Brasil, passaram por Belo Horizonte em 1925, opôs-se ao governo de Getúlio Vargas assinando o Manifesto dos Mineiros, viu a arquitetura de inspiração francesa de seu adorado Rio de Janeiro ser destruída pelos avanços do progresso e sofreu com isso. 
Casou em 1943 com Antonieta Penido. Publicou seu primeiro livro em 1972 e fez sucesso imediatamente. Viveu intensamente e morreu quando quis, em 13 de maio de 1984, com um tiro na cabeça.



3 comentários:

Antonio Cícero da Silva(Águia) disse...

Este é um belo e rico escrito. Por nos trazer aos mais diversos conhecimentos, referentes a profissionais tão dignos... Muito bom... Abraços...

Netto de Deus disse...

Obrigado, Antônio Cícero, pela distinção e incentivo em fazer um blog cada vez melhor.

Pedra do Sertão disse...

pois é, e hoje está tão difícil encontrar gente que acredite em ser íntegro...

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