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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Rubem Braga, professor de lucidez



Por Carlos Drummond de Andrade

Rubem Braga tinha 18 anos e já se impusera como cronista em Belo Horizonte. Fazia no jornal “Estado de Minas” uma coluna de leitura obrigatória. Sempre andejo, lá um dia viajou, deixando de escrever. Mas o jornal resolveu engambelar os leitores, publicando uma crônica de outro, com assinatura dele. Braga leu e telegrafou ao diretor Afonso Arinos: “Não useis meu santo nome em vão”.
Impossível usar o nome de Braga dando a sensação da prosa de Braga. Ela é patenteada. Seus elementos — sensualidade, ternura, anarquismo, tédio, poesia, humour –, soltos, são manipuláveis por qualquer um. Reunidos, formam um composto especificamente braguino, que até dispensa assinatura. E como ele tem imitadores! Imitam, apenas.
Lembro-me muito do cronista jovem, esquivo e desconcertante. Ele namorava uma mocinha loura da Secretaria do Interior, e não era raro ver o relato dos tristes ou alegres passos do seu idílio, sob forma de crônica. Ninguém ousara fazer isso antes e ninguém pensava em estranhá-lo, pois era deliciosamente bem feito. Braga se tornou menestrel de todos os namorados sem expressão artística, e até dos que haviam namorado há muito tempo e voltavam a sentir o gosto da coisa, através do lirismo dele.


Pois um rapaz assim, apaixonado (à sua maneira) pela loura filha do Clarindo, um dia nos aparece correspondente do jornal no “front” da Revolução Constitucionalista de 1932, e logo se boqueja que ele era um espião terrível dos paulistas entre mineiros, espião que seria conveniente prender, submeter a corte marcial e, quem sabe, fuzilar. Oh, imaginação! (Mas a cara dele era meio russa, não sei.) Numa crônica, Braga confessa: “Eu era espião; era espião da vida no meio da morte. A guerra era demasiado estúpida para não me fazer sorrir, eu não reconhecia aliados nem inimigos; apenas via homens pobres se matando para bem dos homens ricos; apenas via o Brasil se matando com armas estrangeiras”. Quem via essas coisas, sem a névoa passional que perturbava tanta gente, era um mocinho de 19 anos, que escreveria aos 34: “Eu observo as coisas com dois olhos que, embora castanhos e mesmo tirantes a verde, vêem este mundo com bastante clareza”.

E esta é a qualidade mestra e inesperada de Braga: lucidez. Um homem que diz tantas coisas absurdas ou surrealistas pode lá ser bom observador da vida? Perfeitamente. Sempre que necessário, Braga emite juízos ponderados sobre fatos políticos, econômicos, sociais, e se nem sempre ou quase nunca sua opinião coincide com a opinião estabelecida ou vitoriosa, isto nada prova contra a justeza da sua visão intelectual e o seu bom senso; prova apenas que tais atributos não gozam de muito favor na coletividade.
Não é, porém, a clareza da apreciação de Braga, ante os acontecimentos por assim dizer jornalísticos, que impressiona. É sua clareza diante da vida em si, e das coisas naturais. Como espião da vida parecendo chateado, mas interessadíssimo — anota os maravilhosos fenômenos da primavera e do verão, que passam despercebidos ao comum, e extrai deles o máximo proveito existencial. As artes da caça, da pesca e do amor, a observação constante do vento noroeste, o contato com praia e águas correntes, água corrente ele mesmo, a notícia de passarinhos, insetos, frutas, paisagens, a celebração quase litúrgica das graças e mistérios da mulher (para ser gentil, um dia ele me disse em carta que gostaria de me presentear com uma pequena fragata e quatro ou cinco mulheres), o dom de sentir, valorizar e distribuir a natureza como um bem de que andamos todos cada vez mais precisados — esta a lição de Braga, “lição de insaciável liberdade e gosto de viver”, que é grato proclamar no dia em que o admirável professor completa cinqüent’anos com a naturalidade, o gosto da vida e da terra, e o intenso sentimento poético e humano que tinha aos dezenove.

Escrito por Carlos Drummond de Andrade em 17 de janeiro de 1963

A OBRA E A SÍNTESE DOS MELHORES CONTOS DE RUBEM BRAGA AQUI


sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Jorge Amado


Em 1945, foi eleito membro da Assembléia Nacional Constituinte, na legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Em 1947, ano do nascimento de João Jorge, primeiro filho do casal, o PCB foi declarado ilegal e seus membros perseguidos e presos. Jorge Amado teve que se exilar com a família na França, onde ficou até 1950. Doutor Honoris Causa por diversas universidades, o “comunista” Jorge Amado orgulhava-se do título de Obá, posto civil que exercia no Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia.

Jorge Amado conheceu dezenas de jornalistas e escritores em suas andanças pelo mundo. Além de marido da famosa escritora Zélia Gattai, o baiano Jorge era amigo de Carybé, Pierre Vergé e Dorival Caymmi. Também conviveu com o cineasta Glauber Rocha, outro baiano ilustre. Conheceu Rubem Braga (com quem dividiu o mesmo teto por um curto período), Rachel de Queiróz (que o incentivou a entrar na militância política) e o chileno Pablo Neruda (que foi companheiro de viagens). Além de conhecido de Vinicíus de Morais e receber a visita do cineasta Roman Polanski, teve intensa amizade com os intelectuais franceses Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.
Jorge Amado é um dos escritores brasileiros mais traduzidos no mundo. É também um cujo obra recebeu mais adaptações. Terras do Sem-fim, Tieta do Agreste e Gabriela, por exemplo, viraram novelas transmitidas em horário nobre.

Fonte: Gene de Gênio 


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sábado, 22 de outubro de 2011

A Vitalidade do Poeta

(clique e amplie)
Lêdo Ivo cobra uma poesia mais indignada com problemas sociais


CARMEN SIGÜENZA

DA EFE, em MADRI

O poeta Lêdo Ivo, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), em visita à Espanha. Em Madri, o poeta foi convidado para apresentar uma palestra na Residência de Estudantes, mesmo lugar no qual falou nesta segunda-feira (10) sobre a falta de consciência social e a de compromisso que a literatura possui atualmente.

"Existe um excesso de atenção ao eu próprio. Parece que a indignação acabou, que os problemas sociais e de coletividade não são mais dos criadores. Hoje em dia, os poetas acabam prestando mais atenção aos assuntos amorosos e sentimentais do seu próprio eu", explicou o poeta.

O poeta disse sentir uma devoção pela literatura espanhola desde criança, citando obras de García Lorca, Alberti e toda sua geração, além de Lope de Vega, Gonzalo de Berceo e Antonio Machado, seu preferido.

Lêdo Ivo é uma personalidade simbólica na sociedade, e, aos 87 anos, apresenta uma vitalidade e um discurso apaixonado de fazer inveja até aos mais jovens. O narrador, ensaísta, jornalista e, principalmente, poeta pertence à Geração de 45, um grupo de escritores que se mostrava contrário ao modernismo de 1922. Esse movimento literário contava com João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Rubem Braga, Clarice Lispector, entre outros.

"Nasci poeta e entendo que o mundo se divide entre os poetas, formados por literatos, arquitetos, pintores, dançarinos e músicos, e os que não têm voz. Esses são os poetas que dão voz e música para os que não têm", argumentou o autor de "As Imaginações", "Rumor da Noite" e "Ode e Elegia", vencedor do prêmio de Poesia da ABL.

Amante de sonetos, dos versos longos e adorador de T.S Eliot, Lêdo Ivo afirmou que seus escritores favoritos são originários mais de França e Inglaterra do que de Portugal e do próprio Brasil.

"Acreditamos que estamos mudando muito no Brasil, mas ainda existe uma grande desigualdade. Nosso futuro depende de uma melhor educação e de uma melhor formação. Esse é nosso grande desafio", acrescentou Ivo.

Poeta da nudez, da música e com mais de 66 anos de atividade, Lêdo Ivo disse que se sente melhor poeta na velhice do que na juventude. "Agora posso refletir mais, tenho mais sentimento de conciliação metafísica e vejo mais o minúsculo, o cotidiano. Além disso, estou mais marcado pelas emoções", destacou.

Para o escritor, a poesia tem um papel fundamental na memória do mundo. "Se não tivesse existido Gómez de Quevedo e Gonzalo de Berceo, por exemplo, saberíamos muito pouco sobre a Espanha", concluiu Ivo, exaltando que o poeta é uma espécie de "máscara", uma imagem que esconde sua face verdadeira.

CARMEN SIGÜENZA é Poeta e Jornalista na Espanha.



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"A Queimada"


"Queime tudo o que puder : 
as cartas de amor 
as contas telefônicas
o rol de roupas sujas
as escrituras e certidões
as inconfidências dos confrades ressentidos
a confissão interrompida
o poema erótico que ratifica a impotência 
e anuncia a arteriosclerose

os recortes antigos e as fotografias amareladas.
Não deixe aos herdeiros esfaimados
nenhuma herança de papel.

Seja como os lobos : more num covil
e só mostre à canalha das ruas os seus dentes afiados.
Viva e morra fechado como um caracol.
Diga sempre não à escória eletrônica.

Destrua os poemas inacabados,os rascunhos,
as variantes e os fragmentos
que provocam o orgasmo tardio dos filólogos e escoliastas. 
Não deixe aos catadores do lixo literário nenhuma migalha.
Não confie a ninguém o seu segredo.
A verdade não pode ser dita". 


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LEDO IVO ATACA OS "GANIDOS" DO IMORTAL PORTELLA

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Desgracida


Com seu estilo inconfundível, Dalton Trevisan prova, mais uma vez, porque é considerado um dos maiores contistas brasileiros contemporâneos. Vencedor do Prêmio Portugal Telecom 2003 com Pico na veia e do prêmio Clarice Lispector da Fundação Biblioteca Nacional 2008 por O maníaco do olho verde, o autor volta a desfiar em DESGRACIDA sua linguagem mordaz e humor cáustico, ao abordar as várias facetas da condição humana.

Dividido em duas partes, o livro começa por Ministórias — uma seleção de textos inéditos do Vampiro de Curitiba, que reafirmam a idéia de Dalton de que só chegaria à perfeição quando compusesse histórias completas com apenas duas ou três linhas. A cada novo livro, seu texto é mais enxuto, conciso — magro, sem por isso ser inane. Aqui, literalmente, para bom entendedor, meia-palavra basta.
 
A consagrada ironia cortante e o habitual sarcasmo de suas histórias estão presentes em 90 microcontos — alguns de apenas uma frase — que transmitem todas as aflições e alegrias de homens e mulheres, com erotismo intenso e diálogos incomuns. Uma coletânea de histórias que retrata a realidade do Brasil hoje, os desastres do amor, as cenas da vida cotidiana, os infernos particulares, a guerra dos sexos.

Na segunda parte, Mal traçadas linhas, são reproduzidos textos de antigas cartas enviadas a amigos, como Pedro Nava, Rubem Braga e Otto Lara Rezende. Nestas correspondências, o então jovem escritor comete alguns “sacrilégios” em relação a algumas obras hoje consagradas. Em um texto endereçado ao amigo Otto, por exemplo, propõe: “Falemos mal do Grande Sertão. Rompe você ou começo eu?”, para depois prosseguir: “Um cronista genial, a mão leve de beija-flor, mas — ai de mim — romancista menor”. 

As cartas trocadas com os célebres interlocutores revelam um pouco mais sobre as idéias do recluso escritor curitibano, avesso a entrevistas, que coleciona uma legião de fãs que cresce proporcional a sua aparente timidez. Quanto mais se recusa a aparecer, mais ansiosos por sua próxima obra crítica e público se tornam. Toda informação sobre o autor é breve e autônoma, retalho que se une a outros para formar uma peça homogênea — tal como muitos de seus livros.

DESGRACIDA é mais uma peça indispensável deste quebra-cabeça que é a genial obra de Dalton Trevisan.

Fonte:   Editora Record  



“DESGRACIDA” COMENTADA 


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